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Era

Ele era meu. O olhar dele era meu. Se a sala estivesse cheia de gente, mesmo que fosse a situação mais solene de toda a nossa vida, o olhar dele desviava-se para mim. E o sorriso que não conseguia evitar denunciava-nos. Ele era meu. E eu era inevitável e indubitavelmente dele. E aquele sorriso - ai aquele sorriso - era difícil de se mostrar. Menos comigo, dizia. Um pequeno piscar de olhos, um semi sorriso e toda a sala sabia que tinha deixado de existir. Fosse a situação mais frívola do mundo ou a mais solene. Quando os nossos olhares se encontravam não havia volta. Era um mundo novo. E quem estava ficava feliz por ter assistido a tal fenómeno. Eramos nós. Um nós tão nosso e tão de todos que raramente nos tocávamos sequer quando em público. Mas todos sabiam que eu trazia comigo um bocado daquele sorriso. E no momento em que eu entrava pela porta, ele olhava-me como se me olhasse pela primeira vez de novo. Como se, mesmo totalmente despenteada, eu fosse a mulher mais bonita...

Fora do sítio pode ser arrumado

Não percebo porque é que tantos temem um 'gosto de ti' fora do sítio. Adiantado ou atrasado, um gosto de ti é um gosto de ti. É uma aprovação da tua pessoa. - Parabéns, trabalhaste o suficiente para te moldares e transformares em alguém agradável ao coração. Eu gosto de horas. De saber a quantas ando. Mas no que a gostos de ti diz respeito, acho que nunca acerto. E não acho que venha mal ao mundo por isso. No final de contas prefiro ficar com uma conta gigante de gostos de ti fora do sítio do que não ter nenhum.

Perspetivas de futuro

E o que mais me custa, no meio de tudo isto, é não saber se algum dia voltarei a sentir isto por outra pessoa. Não só custa. Assusta. O friozinho na barriga, a preocupação constante. E até a incapacidade de adormecer sem antes saber que o carro está estacionado e a cabeça está na almofada. É o não saber se vou conseguir voltar a largar tudo para estar com alguém, ou se existirá alguém capaz de me fazer não pensar. Acho que vamos concordar que vou ser sempre, para sempre, um bocadinho apaixonada por ele. Dirão outros que não haverá problema desde que isso não nos impeça de viver e continuar com as nossas vidas. Essa é a fase seguinte. Perceber que não há problema em largar um bocadinho a mão tão apertada, e que se ao largá-la, escorregar uns centímetros, também sobreviverei na mesma. É isso. Um dia vou perceber que não tem mal não voltar a sentir isto por outra pessoa. 'Isto' ficou reservado para esta pessoa. Outra pessoa terá direito a outra qualquer palavra. Amor ...

Eu por inteiro.

De repente deixei de escrever em metáforas. É sabido que escrever sempre me ajudou a processar e entender o turbilhão de sentimentos e emoções que nunca soube perceber natural e normalmente. E sempre usei metáforas, porque dizer nomes era difícil, e falar de sítios que eram tão demasiadamente meus era impensável. E, de repente, já não sei escrever com metáforas. Passei a ser a preto e branco? Ou cresci? Quer dizer, não preciso de crescer para deixar de usar metáforas. Ou não é preciso deixar de usar metáforas para crescer. Já não estou a fazer sentido e é mais ou menos isso que se passa. Ou então, de repente, tudo faz sentido. E eu é que me escondia nas metáforas e nas histórias com personagens inventadas, mas sentimentos verdadeiros. De repente já não há epidemias de moscas para mostrar o amor, nem uma cama que fala da minha pequenez em relação ao turbilhão de complexos pensamentos que voam pela cabeça de outros. De repente há um sonho, que já não é um sonho, mas que a...

quando um e um não são dois

Hoje sinto-me só. Sozinha já é o meu novo normal. Mas sinto-me só.Será possível sentir-me a viver um sonho, sentir que devia estar radiante, que estou finalmente a fazer-me à vida, de malas e bagagens. E sonhos e acordares cedo? E será possível que esta visão de futuro, de realização de sonhos me pareça incompleta e com ela me faça sentir toda eu uma ínfima parte do que já fui? Falta a mão, a companhia, o segundo prato na mesa, o segundo copo de coca-cola, a mensagem de bom dia, a companhia para o comboio. Não devia funcionar assim. Não era suposto. Sempre soube os supostos e pressupostos e as consequências. E não era assim. Viver um sonho novo era suposto fazer esquecer o antigo, ou pelo menos torná-lo menos presente. Não acentuar a ausência do anterior, porque o sonho era o primeiro e o segundo, quando um e um são dois e as contas são perfeitas como a física que faz o mundo girar direitinho. E um mundo a girar direitinho era o sonho. O sonho era dois - não um primeiro mais u...

Entre as palavras e os olhares

Ele estava sentado. Tinha os joelhos junto ao queixo e olhava o mundo como se tentasse perceber o que tanto o fascinava naquela encruzilhada de pessoas estranhas mas tão parecidas. Ela estava de pé, e olhava o mesmo mundo com um olhar confiante de quem o vai transformar. Viam-se há muito tempo, conheciam-se há pouco. Muitas horas e poucas palavras; muitos olhares que falavam mais do que palavras. Foi assim que se conheceram. Esqueceram as palavras. Fixaram olhares.

Há amores e amores

Há amores que não são para serem vividos. São para serem olhados, cheirados, tocados, mas não vividos. Amados até, se forem dos bons. Há amores que fazem sorrir e chorar, e descobrir coisas que nunca pensamos serem feitas para nós. E fazem-te ver o dinheiro de maneira diferente, a família, os animais, a comida, as ruas. Uma cidade inteira. Há amores que fazem uma cidade nossa. Há amores que fazem sentir saudades do cheiro de um metro quadrado, mesmo antes de ele deixar de existir. Há amores que só começam a fazer sentido quando acabam. Há amores que só são amores depois de acabarem. Há amores que fazem esperar uma noite. E há amores que merecem uma vida.             Há amores - os bons, quase perfeitos - que não são para serem vividos.